A maior inversão da história: Do útero para a costela
Acima do patriarcado, há uma verdade biológica absoluta, universal e inegável: todo o ser humano que já caminhou sobre a Terra nasceu do corpo de uma mulher. O útero feminino é a origem da vida humana. No entanto, a narrativa que moldou as bases da civilização ocidental inverteu completamente esta lógica. Na bíblia, no livro do Gênesis, a história conta que a mulher foi criada a partir da costela do homem.
Esta inversão, de que o homem é a origem e a mulher é o derivado, não é um mero detalhe mitológico. Ela carrega em si o peso de milénios de uma estrutura de poder que conhecemos muito bem: o patriarcado.
Para compreender como chegámos até aqui, precisamos de olhar para este mito não apenas com os olhos da fé ou da religião, mas com as lentes da sociologia, da biologia e da história.
O mito como ferramenta de controle social
Na sociologia e na antropologia, os mitos de criação nunca são apenas “histórias infantis” ou contos metafóricos. Eles têm uma função prática e política fundamental: ordenar a sociedade. Os mitos servem para explicar o mundo e, acima de tudo, para justificar por que razão as coisas são como são.
Ao estabelecer uma narrativa onde o homem veio primeiro e a mulher foi gerada a partir de uma parte do seu corpo, o texto bíblico criou a base mítica perfeita para legitimar a subordinação feminina. Se a mulher vem do homem, ela deve-lhe a sua própria existência. Se ela foi criada para ser a sua “auxiliadora”, o seu papel social é predefinido como secundário.
A realidade biológica do útero foi substituída pela ficção biológica da costela para que a hierarquia social fizesse sentido na mente das pessoas. A mulher como submissa.
É um erro comum pensar que o patriarcado nasceu na Bíblia. A verdade histórica é que a região do Antigo Oriente Próximo, onde os textos bíblicos foram escritos e compilados, já era profundamente patriarcal muito antes de o Génesis ser colocado no papel.
O patriarcado não nasceu na Bíblia; ele foi codificado nela. A maior referência mundial neste argumento é a historiadora Gerda Lerner. No seu livro fundamental, A Criação do Patriarcado, ela demonstra que a subordinação das mulheres já estava institucionalizada nas leis e na sociedade da Mesopotâmia muito antes do Livro do Gênesis ser escrito.
Gerda Lerner: “A metáfora da criação de Eva a partir da costela de Adão inverte expressamente a realidade biológica da procriação, de modo a estabelecer a prioridade conceptual e o domínio do macho”.
Os homens daquela época já detinham o poder político, económico e religioso. Portanto, ao escreverem as suas histórias de origem, eles projetaram a sua própria visão de mundo na divindade. A narrativa da costela não inventou a dominação masculina; ela apenas a sacralizou. Deu-lhe um selo de aprovação divina. Afinal, se foi Deus quem determinou essa ordem na criação do mundo, quem ousaria contestá-la?
O que muitas pessoas não sabem é que o próprio livro do Génesis contém duas versões diferentes da criação, escritas em épocas e por autores distintos.
No Génesis 1, o relato da criação é simultâneo e igualitário. O texto diz: “Criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Aqui, não há costela, não há ordem de chegada e não há subordinação. Ambos aparecem juntos, como reflexos iguais do divino.
No entanto, foi a versão do Génesis 2 que trouxe a história da costela, da tentação e da expulsão do Éden que a tradição religiosa e cultural escolheu enfatizar, repetir e transformar em dogma ao longo dos séculos. A escolha de qual narrativa dar relevância diz muito mais sobre quem detinha o poder de controlar o discurso (os homens) do que sobre a essência do próprio texto sagrado.
Pierre Bourdieu: “A força da ordem masculina se vê no facto de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe-se como neutra e não tem necessidade de se enunciar em discursos para se legitimar”.
Roland Barthes: “O mito não nega as coisas, a sua função é falar delas de modo purificado, fundando-as em natureza e em eternidade, dando-lhes uma clareza que não é a da explicação, mas a da constatação”.
Desconstruir para libertar
Analisar estas narrativas à luz da realidade biológica e do contexto histórico não significa necessariamente atacar a espiritualidade, mas sim desarmar as armadilhas culturais que usam o sagrado para oprimir.
Quando confrontamos o mito da costela com a realidade do útero, estamos a fazer um exercício de justiça histórica. Dizemos ao mundo que as estruturas patriarcais não são leis divinas da natureza, mas sim construções humanas criadas por homens, para homens. E tudo o que é construído pelo ser humano pode, e deve, ser desconstruído.
A ideia de que o homem é o padrão absoluto do ser humano e a mulher é apenas um “derivado” ou um apêndice dele é a tese central de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. Ela aborda diretamente o mito do Gênesis para explicar como a cultura ocidental define a mulher não por si mesma, mas em relação ao homem.
Simone de Beauvoir: “A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. (…) Eva não foi criada ao mesmo tempo que o homem; não foi feita de uma substância diferente (…) foi tirada do flanco do primeiro homem”.
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