A vertigem dos pratos

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O dia rompe. E com ele, o cheiro de café e uma nova lista, invisível, de pratos a girar. Ah, os pratos. Não são de porcelana. São feitos de demandas urgentes, de amores que cobram, de contas que vencem, de um eu que se despedaça em mil pedaços para caber em todas as pendências. Cada um deles, um problema. Uma expectativa. Um futuro que teima em não se encaixar no agora. Em não ser simples.

E a gente tenta, não é? A gente estica os braços, dobra o corpo, força os sorrisos. Os pratos giram no ar, em câmera lenta e, ao mesmo tempo, numa velocidade cruel. Um é o trabalho que não acaba. Outro, a família que exige presença. Um terceiro, aquele sonho antigo que a gente prometeu não deixar morrer, mas que já está trincado, prestes a cair. E o corpo? Ah, o corpo é só o fio de navalha onde tudo se equilibra, ou desequilibra.

Sinto o cansaço. Não é o cansaço dos músculos, não. É aquele que mora na medula, que pesa nos olhos ao amanhecer, que rouba o ar no meio da tarde. É a exaustão da alma, de estar sempre um passo atrás, um fôlego a menos, um gesto atrasado. A sobrecarga virou paisagem. Os nervos, em carne viva, vibram com o ruído de cada prato que ameaça despencar.

Pratos de frustração

A frustração é líquida. Escorre pelos poros, molha os travesseiros à noite. Uma frustração áspera, que arranha a garganta e a alma, por não dar conta. Por ser menos que o ideal ou falhar em algum dos malabarismos. Por ver o caos se aproximar, e sentir as mãos nuas e impotentes para deter a avalanche. E o desejo, quase inconfessável, de deixar que tudo caia. Que os pratos se espatifem no chão, num barulho ensurdecedor que, quem sabe, finalmente traga um pouco de silêncio. Um silêncio que eu possa, talvez, usar para respirar. Ou apenas para chorar.

É a vida, dizem. Mas que vida é essa que nos exige tanto, e nos entrega tão pouco espaço para apenas ser? O sol se põe. Mais um dia sem todos os pratos intactos. E a promessa vazia de que amanhã, talvez amanhã, a gente aprenda a voar mais leve. Ou a deixar que alguns pratos se quebrem, sem culpa. Sem se quebrar junto.

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